A política cultural municipal-local tem como desafio o estabelecimento das  potencialidades da cidade, em todas as suas vertentes e possibilidades de  expressão, indo dos cenários do processo espontâneo à produção industrial. A  dinâmica cultural não deve ser tratada como um fenômeno que gira ao redor,  mas sim, como uma linha da mesma na trama econômica. Em outras palavras,  a assunção da concepção de cultura como fator de desenvolvimento social  global, superando esquemas meramente gerenciais ou economicistas.

Implica, portanto, em executar a gestão da economia da cultura que permita uma  distribuição mais justa da renda, de fomento à economia solidária e dos circuitos  mais populares da economia, estimulando um crescimento não predatório dos  negócios culturais, salvaguardando o patrimônio comum, e a dignidade de  produtores/as, trabalhadores/as e gestores/as culturais.

Para tanto, uma ação incontornável é incorporar o planejamento cultural no  planejamento geral do desenvolvimento da cidade, com sentido estratégico,  superando uma visão política eleitoral e imediatista. Não basta aprovar os planos  diretores de desenvolvimento urbano ou planos estratégicos, pois tais peças  legislativas devem ser concebidas democraticamente e divulgadas  permanentemente, com o respectivo processo de avaliação regular.

Estabelecer um plano de expansão dos equipamentos públicos e das iniciativas  permanentes da gestão municipal/local, com a renovação arquitetônica de  edifícios existentes, ou com novas construções, garantindo uma gestão  articulada com o público residente e integrando com maior objetividade os  equipamentos educacionais, de lazer e de esporte, passa a ser uma exigência  em um contexto no qual se busca assentar novos paradigmas de gestão cultural.

GESTÃO CULTURAL E OUTROS AMBIENTES DA CULTURA NO SENTIDO  AMPLO

Existe grande potencial a desenvolver no que tange às relações entre a produção  artística e as esferas da ciência e tecnologia. Igualmente, há muito o que  desenvolver no que se refere à crítica e jornalismo cultural, crítica das linguagens  artísticas, assim como a ampliação dos debates sobre as artes, a filosofia, a  antropologia, história e teorias da comunicação. Já é um fenômeno em curso o  interesse pelas expressões tradicionais populares, sendo também frequente a  existência de cursos de graduação e pós-graduação e núcleo de pesquisa,  acerca de novas culturas emergentes.

Esse conjunto de medidas é parte fundamental para uma aproximação entre os  centros de pesquisa, universidades, empresas de equipamentos e hardwares,  de desenvolvimento de programas e softwares, para assim produzir redução na  dependência tecnológica, atualmente existente em relação a outros centros  econômicos mais industrializados de onde são importados equipamentos e  pacotes tecnológicos.

Nesse sentido, é relevante destacar a interface entre arte, ciência, crítica,  filosofia e outras áreas do saber científico, aproximando a política cultural das  instituições de ensino e pesquisas universitárias. É preciso ainda estimular o  desenvolvimento dos circuitos econômicos das artes e da cultura, definindo  planos estratégicos em áreas como o turismo, o entretenimento, os esportes,  tendo o cuidado de não subordinar as tradições populares, e a criatividade  artística a elas vinculada, a uma visão esquemática dessas expressões  tradicionais.

Tal estratégia confluiria para a elaboração de um calendário estável de feiras,  eventos científicos, empresariais, corporativos, institucionais artísticos e  esportivos, de maneira a dar sustentabilidade à atividade econômica, diminuindo a sazonalidade, e permitindo um uso programado e racional dos instrumentos e  meios disponíveis na cidade, e geridos pelo poder público, gerando potencial  econômico que é base para distribuição de renda e elevação do padrão de vida  dos assalariados.

Tudo isto implica em desenvolver esforços para tornar a cidade um lócus de  economia criativa e de integração cultural, com forte oferta de serviços e rede de  empreendimentos vinculados à arquitetura, patrimônio, cinema, audiovisual,  artes visuais, design, moda, artesanato, gastronomia, teatro, dança, música,  ensino técnico e universitário de produção e gestão cultural, igualmente das  diversas linguagens artísticas, da indústria editorial, assim como de meios de  comunicação, publicidade, rádio e TV, contribuindo para fazer da cidade um polo  técnico e educacional de vanguarda. Não se trata de construção de grife, mas  de na vertente de um modelo econômico conceitualmente mais amplo.

Esse conjunto de atividades tem potencial para garantir a ocorrência de eventos  artísticos de várias dimensões, isto significa entender as artes não apenas como  “animação”, mas como um fazer que tenha importância em si, como fator de  desenvolvimento social, econômico, das subjetividades individuais, dos diversos  coletivos sociais e do imprescindível sentido da construção da Nação brasileira.

Esse fazer resulta na demanda por desenvolver as relações entre produção  cultural, arte, ciência, crítica e jornalismo cultural, assim como, o  desenvolvimento da abordagem crítica e filosófica da produção artística,  ampliando os horizontes dos debates, e o fluxo de informações mais densas,  através da realização de seminários, fóruns e congressos, círculos de discussão, onde seja possível uma abordagem mais qualificada e comprometida das  questões.

Por fim, é imprescindível entender que a política cultural existe no contexto de  uma política de formação cidadã, e que, portanto, deve reconhecer a  problemática em relação à discriminação racista, classista e de exclusão por  gênero e expressão da sexualidade que se manifesta de forma variada, assim  como, importa reconhecer os prejuízos históricos causados por atitudes que  diminuem as manifestações de cunho popular, como valor integrante da  concepção de Nação brasileira, tal qual é em qualquer civilização, respeitando a  liberdade dos costumes, dos saberes e fazeres tradicionais, e as decisões dos  indivíduos e seus coletivos, na sociedade civil, e no âmbito da sociedade  estatal/política.

Há graves prejuízos impostos às manifestações afro-brasileiras e indígenas, e a outras tantas populações em suas especificidades de identidades e diferenças  (ciganas, ribeirinhas, sertanejas, dentre outras). Isto impõe a necessidade de  uma ação dirigida, com um conjunto programático de ações, que visem à  promoção de tais expressões, em sua diversidade, e em respeito às suas  identidades.

A ação cultural deverá seguir a meta de superar as injustiças provocadas pelo  encobrimento dos segmentos sociais historicamente subalternizados, e  promover a valorização da produção simbólica cultural fruto de práticas e  vivências acumuladas historicamente, assumindo, portanto, sua condição de  pilar de implantação das reivindicações oriundas dessas culturas específicas.

A cultura municipal/local deve articular-se com os contextos regionais,  reforçando dialeticamente a diversidade, e processos de integração solidária  com outros municípios e centros urbanos, assumindo assim, uma postura de  capital democrática com os demais polos culturais que constituem a região. A  dimensão das grandes urbes e capitais, a conurbação que já existe em quase  todos os estados, exige o desenvolvimento de órgãos governamentais,  responsáveis por planejamento metropolitano, no âmbito cultural.

Nesse caudal da gestão das cidades, outro tema de grande atualidade é a  relação entre certas cidades, politicamente fortes, com o Estado-Nação. As  grandes capitais e centros urbanos no Brasil, devem ser fatores de afirmação do  Estado-Nação, ao invés de se apresentarem como seu substituto, narrativa de  cunho fortemente ideológico, vinculado a alguns países com centralidade  econômica, de onde emanou durante as décadas de 1980-1990, um ideário de  que grandes cidades são quase paralelas e concorrentes com seus respectivos  estados. Isso se deu em larga medida, com o caso de Barcelona, durante as  olimpíadas de 1982, assim como com a revitalização econômica e artística de

Berlim, e sua vinculação com outras duas emblemáticas cidades europeias,  Paris e Milão.

Deste nosso lado do oceano atlântico, ocorre algo semelhante com Nova Iorque  e Los Angeles. Em outras paragens, destacam-se Singapura e Dubai (Capital  dos Emirados Árabes unidos). Estes casos, frutos de grandes empreendimentos  com financiamento transnacional, e a construção de um desenho imaginário  urbano, vinculado a eventos de alcance mundial (eventos esportivos), e zonas  exclusivas para turistas e executivos, nada tem a ver com a realidade das  capitais brasileiras. Há, entretanto, um grande processo de construção de  imagens, e disputas por investimento e pela atenção da mídia internacional, para com cidades consideradas icônicas em escala planetária.

Se algumas cidades já citadas são consolidadas no imaginário de uma boa parte  da humanidade, outras tantas poderão entrar nessa relação de referências e  preferências de um grande público, que cada vez mais se interliga pela televisão,  pela telefonia e internet. O Brasil tem um enorme potencial para entrar nessa  disputa, não apenas com a cidade que é o símbolo do Brasil para o resto do  mundo, que é o Rio de Janeiro, mas também podendo destacar outras tantas,  corrigindo um possível vício que é o de preparar as cidades como cenografia  para o exterior, e para os visitantes, mas ao contrário, preparando-as como  cidades calcadas no bem-viver, para seus próprios cidadãos e cidadãs.

Considerações finais 

Este texto toma como principal referência cronológica o período inicial dos  governos presididos por Lula da Silva e, por conseguinte, as mudanças  institucionalizadas pelo Ministério da Cultura a partir de uma conceituação que  trata os assuntos culturais em três grandes abrangências.

Ficou estabelecido com bastante solidez que a política cultural abarcaria a  produção simbólica, de variadíssima abrangência; a dimensão econômica, com  todos os aspectos relativos à geração de renda, custos, trocas mercantis,  financiamentos de diferentes fontes, peso do PIB nacional, e o conceito de  cidadania, combinando o direito de acesso ao direito de produzir, válido tanto  para os coletivos como para os indivíduos, sendo, portanto, a cultura parte  orgânica da cidadania, e abrindo ela mesma outra ideia chave, a de cidadania  cultural.

Tendo concordância com esta combinação teórica, inovadora em nossa história  administrativa e política, faz-se destacar, entretanto, outra linha de formulação,  que por si só abre uma larga avenida de formulações, não sem polêmicas e  resistências.

Sugiro que ao lado das três vertentes defendidas e consolidadas, acrescente-se  uma quarta que não ganhou destaque nas gestões nacionais nem nas locais, a  vertente ou linha vinculada à geopolítica nacional.

Tem havido um intenso e incessante embate, tanto nas arenas política como em  resoluções e acordos comerciais e diplomáticos, fazendo ora apologia à  globalização capitalista, capitaneada pela hegemonia dos interesses e  dinâmicas do capital financeiro, ora fazendo surgir formas novas de abordar a  questão do espraiamento do sistema, com influência direta inclusive em países  com repúblicas socialistas.

Seja por adesão, submissão ou resistência, a principal marca das últimas  décadas do sec. 20, e as primeiras duas décadas do sec. 2, é a expansão da  financeirização da economia capitalista, com a devida resistência, e tentativas  de construção de alternativas, tanto em países centrais, através de governos e  movimentos sociais, e da elevação de modelos em busca de afirmação, sujeita  muitas vezes a vários trânsitos, quanto nos países em desenvolvimento, e  noutras áreas de menor envergadura no sistema periférico do capitalismo.

As experiências socialistas que se reafirmaram pós desfazimento do chamado  bloco soviético se articulam internacionalmente, e fazem movimentos  importantes por dentro da própria economia mundial castigada, e controlada pelo  sistema capitalista, não mais sob um comando unipolar.

Nesse embate, que marca a vida cotidiana de boa parte da humanidade, é  frequente o serviço noticioso não apenas acerca da realidade política, mas de  qualquer outra temática, desde os fenômenos naturais às artes, passando pelos  esportes, e isto em qualquer ponto do planeta.

Inevitavelmente decorrem daí questões como a criação e movimentação em  bloco de uma gama de países, sejam articulados na ALCA ou União Europeia  (UE), agrupamentos de países asiáticos, União Africana (UA) e, inclusive, vários  sub grupos membros desses mesmos blocos, patenteando-se a carência de  formulação e ação alternativas, no terreno de disputa internacional e de  organização, por afinidade cultural, dos diversos agentes culturais brasileiros, à  exceção de duas ou três empresas de comunicação e iniciativas importantes,  porém, ainda tímidas, no terreno de medidas governamentais ou interestatais,  como é o caso do MERCOSUL ou CELAC.

Por sua dimensão geográfica, econômica, potencial de recursos naturais e  especialmente pelas características da variada produção cultural, em boa  medida reconhecida fora do país, o Brasil tem possibilidades e necessidades  que ainda estão longe de apontar horizonte mais claro.

Isso se coloca como desafio e tarefa para as próximas resoluções nos âmbitos  da Conferências de Cultura, das medidas governamentais, e mesmo no nível da

economia vinculada a grupos econômicos, destacando aí a necessidade de  garantir a diversidade de medidas, para atender aos mais variados níveis de  potência econômica, do áudio visual ao artesanato.

Um segundo aspecto que vale ressaltar é a estranheza que pode gerar um  projeto de articulação que destaque as grandes concentrações urbanas do país,  o que pode acarretar dúvidas sobre uma preocupação recorrente nos embates  sobre planejamento do país, que é a descentralização da economia e  potencialidades, concentradas em determinadas regiões metropolitanas, e a  ausência quase total em parte significativa do território, como nas vastas zonas  rurais e naturais sobre as quais pairam dúvidas de como fazer as atividades  econômicas, a não ser evidentemente a agricultura de pequenos e médios  produtores, alguns da classificada como familiar, outros articulados com a  agroindústria, e o forte bussines do agronegócio de exportação e do abastecimento interno.

Este seria um projeto envolvente das capitais e grandes urbes, contraditório com  a necessidade de olhar para o vasto interior nacional, durante séculos e ainda  em décadas recentes, afastado das principais dinâmicas e circuitos simbólicos?  Trata-se de um desafio.

Riscos certamente existem. Entretanto, não há como escapar da realidade  representada pela forte concentração populacional, assim como das atividades  do setor de serviços nas cidades mais expressivas do país. Trata-se de uma  ação do estado brasileiro para realizar o que está como demanda latente, ao  mesmo tempo em que se implementa o Sistema Nacional de Cultura, pelos  quase 5700 municípios. A atuação do poder público tem capacidade de  contrapor medidas aos processos de viés concentrador e deformador, que o  processo mercantil da indústria cultural pode induzir algo já revelado pelo constituído até então.

Outro fenômeno a destacar que realça a responsabilidade sobre as cidades de  maior porte é seu simbolismo tanto para o plano interno, como para o exterior,  algo que fica explicitado através do discurso da propaganda turística, como nas  narrativas que apresentam o país para sua própria população, e para outros  países.

Já é lugar comum afirmar que o Rio de Janeiro é o rosto do Brasil, que São Paulo  sua locomotiva econômica, cidade da pujança, Manaus capital do mundo  Amazônico, recife capital do Nordeste com sua música original e referência  política, Salvador, capital primeira, matriz de boa parte da cultura popular, e  especialmente a de origem africana, para não falar de Brasília, símbolo de uma  linguagem geométrica lírica, e expressão mor do urbanismo modernista, marca  do processo de industrialização que se viveu da década de 1930 a 1960. Brasil  é um dos poucos países que tem cidades com características tão diversificadas

como Ouro Preto, Olinda, São Luís e Salvador como Patrimônio da Humanidade  estabelecido pela UNESCO, e ao mesmo tempo tem uma urbe como Brasília,  sua capital.

Trata-se de uma combinação rara e de muito poder simbólico. O país se  manifesta pelo barroco e pelo modernismo contemporâneo, os dois com muita  expressividade.

Ao falar das “cidades invisíveis”, Ítalo Calvino (1990) discorre de forma poética e  profundamente reflexiva, sobre a existência humana e a (ir)racionalidade dos  inúmeros contextos de sociabilidade nas cidades. Ao concluir pela coexistência  de uma cidade justa e outra injusta, em todas as que existem, e nas que advirão  do empreendimento humano, questiona-se sobre os rumos futuros, em um  diálogo fantástico entre Marco Polo e Kublain Khan, e conclui:

[…] Se digo que a cidade para a qual tende a minha viagem é descontínua no  espaço e no tempo, ora mais rala, ora mais densa, você não deve crer que pode  parar de procurá-la. Pode ser que enquanto falamos ela esteja aflorando dispersa  dentro dos confins de seu império. (CALVINO, 1990, p. 149).

Nesse continuum que é a vida em sociedade, a política cultural, que é geradora  e potencializadora de uma espécie qualificada de vida comunitária, devem  pautar-se, portanto, por valores e princípios humanistas e solidários assentados  na defesa da democracia, da pluralidade política e estética, da liberdade de  opinião e crítica, da diversidade étnico racial, de gênero e sexual, e da  convivência respeitosa entre as religiões e ao direito de não professar religião  alguma, da superação das desigualdades socioeconômicas, do desenvolvimento  socioambiental e cultural sustentável, da defesa do desenvolvimento cultural  nacional, ajudando a superar a dependência tecnológica, e equilibrando o  mercado com respeito à produção importada, do desenvolvimento de relações  econômicas, políticas e culturais que apontem para novas relações de justiça e  equidade entre os povos e nações de todo o mundo. A cidadania dispersa, mas  que aflora inevitavelmente entre nós.

A política cultural nas cidades, sejam elas pequenos núcleos ou grandes e  icônicas urbes, deve servir ao projeto de cidade profundamente democrática, em  todos os sentidos, do econômico ao artístico, passando pelo científico e social,  rumando em aproximação a uma cidadania plena.

Assim, as cidades brasileiras, ao invés de serem “babilônias”, serão centros de  esperança profunda e de transformação social profunda.

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